BOLSONARO 2.0
Flávio é do centrão (nem direita nem esquerda vão concordar)
Senador pediu apoio de "todes" para vencer Lula; presidente do PL, Valdemar disse que ele é menos "destemperado" que o pai
Flávio tem o pragamatismo de centro, mas veja bem... | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é do centrão. Provavelmente, leitores da direita vão reclamar tanto quanto os da esquerda.
No caso da esquerda, as lamentações serão por não tratar o filho mais velho de Bolsonaro como um político de extrema-direita, essencialmente antidemocrático. Já os bolsonaristas não vão gostar de ver o pré-candidato ao Planalto em um espectro que comumente dialoga com todos os lados.
Mas a verdade é essa. Flávio é do centrão, apesar de flertar com extremos em alguns momentos, devido ao grupo em que está inserido. Está cercado de políticos de direita e extrema-direita, mas sempre operou com o pragmatismo do centro.
Mesmo quando o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), foi eleito em 2018 e iniciou o mandato no ano seguinte com toda a intransigência e agressividade contra a imprensa, Flávio mantinha uma postura menos beligerante.
Essa postura pragmática ficou ainda mais evidente após as eleições de 2022. Se você crê de alguma forma na delação do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, relevante para a condenação dos réus na trama golpista, você vai perceber que Flávio destoa dos demais familiares. Diferente de Eduardo e Michelle Bolsonaro, o senador fazia parte de um grupo contra os movimentos pelo golpe de Estado.
Segundo o tenente-coronel Mauro Cid, ele defendia a transição de poder e aconselhava Bolsonaro a se consolidar como líder da oposição, após a derrota na eleição de 2022.
Diante disso, parece menos estranho quando ele publica no X que gostaria do apoio de “todes”, algo repudiado, principalmente, por representantes da direita – no caso, o uso de linguagem neutra. “Está todo mundo querendo vencer você na discussão. Mas o que precisamos é ganhar a eleição! Gostaria de contar com todas, todos, todes, todys e todXs”, escreveu na rede social na segunda-feira (23).
O que seria impensável para outro membro do clã e que, possivelmente, geraria até o cancelamento de algum bolsonarista de fora da família, para Flávio passa. Ele pode dizer, inclusive, como já disse, que não pensa igual ao pai.
E para cravar a diferença entre Flávio e Jair Bolsonaro, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou na segunda-feira que o senador não tem o "destempero" do pai. “Quando a gente vê as atitudes do Bolsonaro, o trabalho do Bolsonaro, a gente via que ele tinha uns destemperos que o Flávio não tem. O Flávio é muito equilibrado, preparado, tem carisma e tem tudo para fazer um governo melhor que o pai”, declarou em jantar para empresários em São Paulo.
Como filho, ele tem mais elasticidade para ser diferente e ainda ser um Bolsonaro. Pode, até mesmo, dizer que se vacinou contra a Covid-19, o que o pai não fez. Não por acaso, há quem o chame de “Bolsonaro vacinado”.
Centrão, mas com tendências extremas
É preciso reforça, contudo, que, por estar cercado de nomes da direita e extrema-direita, Flávio pode ceder a movimentos mais extremistas. Não por acaso, ele já defendeu que o nome apoiado pelo bolsonarismo deveria topar "forçar" uma anistia. "A gente tem que fazer uma análise de cenário também de que, na hipótese de o presidente dar um indulto para Bolsonaro, o PT vai entrar com um habeas corpus no STF. [Vão declarar que] é inconstitucional esse indulto. Então, vai ter que ser alguém na Presidência que tenha o comprometimento, não sei de que forma, de que isso seja cumprido", afirmou à Folha de S.Paulo em junho, antes de ser anunciado pré-candidato ao Planalto.
Ele completou: "É uma hipótese muito ruim, porque a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes. Tudo que ninguém quer. E eu não estou falando aqui, pelo amor de Deus, no tom de ameaça, estou fazendo uma análise de cenário. É algo real que pode acontecer. Bolsonaro apoia alguém, esse candidato se elege, dá um indulto ou faz a composição com o Congresso para aprovar a anistia, em três meses isso está concretizado, aí vem o Supremo e fala: é inconstitucional, volta todo mundo para a cadeia. Isso não dá. Certamente, o candidato que o presidente Bolsonaro vai apoiar vai ter que ter esse compromisso, sim."
O "uso da força" contra uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) é um ato antidemocrático. Naquele momento, Flávio deixou claro que um candidato só teria a bênção de seu pai, caso garantisse o perdão. Tratava-se de uma "interferência direta entre os Poderes".
De fato, pré-candidatos como os governadores Ronaldo Caiado (PSD), Ratinho Júnior (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG) defendem a pauta. Se a retórica de Flávio é suficiente para ele cruzar a linha em que sempre se manteve, é o eleitor que deverá saber se está disposto a pagar para ver...