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ARTIGO

Goiânia sob as águas do descaso

"Toda vez que a capital alaga, a prefeitura escolhe um refrão em vez de uma solução: a culpa é da chuva"

Cíntia Dias
Goiânia | 09/01/2026

Cidades brasileiras e internacionais já demonstraram que é possível reduzir alagamentos | Foto: Reprodução

Toda vez que Goiânia alaga, a prefeitura escolhe um refrão em vez de uma solução: a culpa é da chuva. Uma explicação conveniente, mas falsa. A crise climática é real e resulta de décadas de degradação ambiental promovida por políticas predatórias. Ela impõe desafios concretos às cidades. O que não pode ser naturalizado é o abandono deliberado do planejamento urbano, usado para mascarar a escolha política de não realizar obras estruturais. O que vemos hoje é a política do TikTok, em que a prioridade do prefeito é o marketing, não a solução dos problemas. O resultado está diante dos nossos olhos — e dos pés encharcados da população trabalhadora.

Goiânia cresce há décadas orientada pelos interesses do mercado imobiliário, sem que os investimentos públicos em drenagem acompanhassem a impermeabilização acelerada do solo. Bairros inteiros foram erguidos sem galerias suficientes, córregos foram canalizados de forma inadequada e áreas de várzea foram ocupadas. O poder público sempre soube — e continua sabendo — das consequências. Ainda assim, optou por empurrar o problema com a barriga, transferindo o custo do descaso para quem vive do trabalho.

A atual gestão insiste em tratar enchentes como fatalidades inevitáveis. Em vez de enfrentar o problema estrutural, aposta em medidas paliativas e cenográficas: placas alertando para áreas de alagamento, avisos por celular e vídeos nas redes sociais. É a política do aviso, não da prevenção. É o governo do like, não da obra. Enquanto isso, famílias perdem móveis, trabalhadores arriscam a vida no caminho de casa e comerciantes acumulam prejuízos. A cidade para — e o prefeito posa.

Chama atenção que haja recursos e tempo para intervenções cosméticas, como canteiros com grama sintética e ações pontuais de “embelezamento urbano”, mas não para a implementação de um plano robusto de macrodrenagem, com obras permanentes, manutenção contínua e cronograma transparente. Essa inversão de prioridades revela uma lógica antiga e perversa, marcada pelo coronelismo goiano, que governa de cima para baixo e trata a população como figurante: informa, mas não escuta; comunica, mas não resolve.

Não é falta de exemplos. Cidades brasileiras e internacionais já demonstraram que é possível reduzir alagamentos por meio de piscinões, parques de retenção, jardins de chuva, pavimentos permeáveis, recuperação de cursos d’água e ampliação das galerias pluviais. Essas soluções exigem planejamento, investimento público e coragem política para enfrentar interesses que lucram com a desordem urbana. Exigem, sobretudo, compromisso com quem mais sofre os impactos das enchentes.

Uma administração responsável, que coloque as pessoas no centro das decisões, é possível — mas não nasce da lógica da direita. Goiânia precisa de um projeto que planeje antes de construir, que invista em infraestrutura pública e que coloque a vida acima do lucro. Uma cidade em que a política não se limite a avisar sobre o risco, mas elimine o risco. Onde o governo não use o caos para viralizar, mas trabalhe para que o caos não aconteça.

A chuva não é inimiga. O inimigo é o descaso. E contra ele, a população goiana precisa de respostas — não de desculpas.



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