OPINIÃO
A governabilidade nunca esteve tão fragilizada
Grande derrotado não foi Jorge Messias, indicado ao STF, e sim o presidente Lula
Jorge Messias foi indicado pelo presidente Lula ao STF e teve seu nome rejeitado pelo Senado | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Por meses, faltou-me iniciativa para retomar a escrita. Assunto, no entanto, nunca faltou. A derrota de Biden, a guerra na Ucrânia, os ataques ao povo palestino, as fraudes no INSS, a crise política no Rio de Janeiro — tantos acontecimentos, tantos desdobramentos, e nenhum deles foi capaz de me levar à produção de um único artigo.
Mas, à vista dos acontecimentos desta quarta-feira, 29, encontrei novamente o elixir necessário para retomar esta prática. O início da noite foi memorável. Afinal, não é todo dia que um indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) tem seu nome barrado pelo Senado.
Aliás, ninguém de nossa geração presenciou fato semelhante, ocorrido pela última vez há 132 anos, ainda no século XIX, quando Floriano Peixoto — aquele dos livros de história — ocupava a chefia do Poder Executivo.
Jorge Messias, advogado-geral da União, precisava de 41 votos favoráveis para ascender ao topo da carreira jurídica. O placar, porém, foi emblemático: 42 votos contrários.
A maior derrota, no entanto, não é do jurista. Consolidado em sua trajetória, Messias não chegou ao topo, mas o “quase lá” já o coloca acima da imensa maioria dos bacharéis e advogados do país. O grande derrotado da noite é Luiz Inácio Lula da Silva.
É justamente aqui que nasce o ponto central: onde reside, de fato, essa derrota? Na escolha do nome, na condução dos articuladores ou na leitura equivocada das demandas da sociedade e do Senado? A melhor resposta talvez seja: em todas elas.
A começar por seus articuladores. Dentre tantos congressistas, nenhum previu uma derrota dessa magnitude? Ainda que o argumento das traições de última hora seja válido, um revés tão expressivo não poderia ter passado despercebido. A surpresa, neste caso, não está apenas no resultado, mas na incapacidade de antecipá-lo.
Quanto ao escolhido, a pergunta também se impõe: por que Messias? O nome remete, inevitavelmente, a um episódio marcante da história política recente, quando serviu de mensageiro da então presidente Dilma Rousseff, levando a Lula o termo de posse como ministro da Casa Civil, mas a ser utilizado apenas em caso de necessidade — expressão que ficou marcada no imaginário político nacional.
Se tivesse indicado Rodrigo Pacheco, como desejava o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, a história seria diferente? E se tivesse escolhido uma mulher negra, como reivindicaram setores da sociedade, o desfecho seria outro?
“E” e “se” — como ouvi certa vez em um filme — são palavras que, colocadas lado a lado, têm o poder de nos assombrar pelo resto da vida.
A incerteza sobre o que poderia ter ocorrido, e se o desfecho teria sido outro, certamente consumirá por algum tempo os pensamentos do presidente. Lula, no entanto, não pode se dar ao luxo de lamentar. O recado foi dado, e a mensagem é clara: sua governabilidade talvez nunca tenha estado tão fragilizada, nem mesmo durante seus dois mandatos anteriores.
É preciso redefinir a rota, promover uma conversa franca e, em certa medida, fazer concessões — especialmente ao centrão. Ainda assim, o caminho não será simples, sobretudo agora que a relação com Alcolumbre parece ter azedado de vez.
O recado do Senado foi inequívoco: a governabilidade não se sustenta apenas na força do Executivo. A partir desta derrota, Lula não administra apenas um governo — administra uma correlação de forças que talvez represente o momento mais delicado de sua trajetória política.